Showroom

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Showroom — matéria prima multimédia

Os meios e os suportes que utilizamos modificaram-se … nós também.

O registo fotográfico da minha colecção de desenhos obrigou-me a ver de novo cada objecto, cada momento que durou apenas o tempo de o criar.

Decidi agora transformá-la num laboratório de sintetização de imagens e envolvimento de sonoridades  — um produto multimédia inspirado nessa viagem sem tempo.

Tenho ainda uma memória vaga de quando percebi que podia desenhar “as pessoas”. Era algo espantoso e desde cedo o meu interesse pela representação da figura humana e dos objectos que a rodeiam foi crescendo. Quando cheguei à Escola de Belas Artes, regressei quase ao grau zero do desenho. Percebi claramente que aquilo que até então desenhava era demasiado ruidoso. Fruto de um imaginário derivado do olhar disperso pelas coisas, sem suportes conceptuais ou técnicos.

Preservei uma parte desse instinto e durante mais de uma década dediquei-me à laboriosa tarefa de aprender e fazer o Desenho. Como qualquer outro labor, o desenho requer tecnologia. Desde a observação/concepção ao traço/registo do material sobre o papel, suporte por excelência do desenho.

Nesse trânsito, partimos da observação do Universo — como observar e representar a Natureza  — para a sua simplificação quase abstracta e gestual. O objectivo do desenho é simplificar tudo o que observamos. Acrescentando ou retirando tudo o que quisermos.

Por outro lado, quase ao mesmo tempo, tive o privilégio de ter em casa um laboratório científico que transformava luz em imagens impressas sobre papel. Sob a ténue luz vermelha vi a imagem sintetizar-se num suporte manipulável, sob o efeito da luz, com filtros, tanques e líquidos misteriosos.

Iniciei agora o processo de transformar tudo de novo. A Matéria Prima que concebi no labor do Desenho é agora o meu próprio “material”. Não porque tenha abandonado de alguma forma o “desenho inicial”, mas sim porque as nossas ferramentas se modificaram rapidamente.

MATÉRIA PRIMA regressa ao desenho inicial e transpõe-o para uma dimensão ilimitada de LUZ, SOM e ESPAÇO.

Não se trata de RECRIAR o objecto artístico a partir do seu suporte tradicional e transportá-lo para uma OUTRA DIMENSÃO — trata-se de “libertar a matéria prima original”, encerrada no seu suporte, e transmutá-la para um papel metafísico, sem espessura e sem peso. Manipulável a partir do instinto e sintetizável através de uma inteligência mista, naturalmente humana.

O PRODUTO é um objecto multimédia que narra esse processo longínquo de desenhar as coisas e fixar os instantes dispersos que nos afectam.

Álvaro Mendonça
18 de Outubro de 2019

 

desde sempre

desenhávamos

as coisas

as coisas todas